Minha família é italiana e simples. Gente que sabe o valor das coisas porque construiu cada uma delas do zero. Cresci ouvindo dois idiomas ao mesmo tempo: o de casa, onde nada era desperdiçado, e o dos ambientes onde eu acabaria trabalhando, onde as coisas parecem não ter preço.
Fui para as exatas. Penso em sistema, em estrutura, em como as peças se encaixam — e isso me levou naturalmente para o mundo financeiro. Não para o banco. Não para a gestora. Para a consultoria independente de patrimônio, que é onde você é pago para pensar, não para vender.
Passei mais de vinte anos na Faria Lima. Aprendi a montar as estruturas, conheci os instrumentos, entendi as pessoas. Tirei o CFP® — a certificação de planejador financeiro, que vem com uma obrigação desconfortável e necessária: o interesse do cliente antes do meu. Nesse ambiente, vocabulário técnico é senha de acesso. Quanto mais complicado você fala, mais sério parece.
Fiquei anos escrevendo “proteção contra obstáculo no solo” como cobertura de seguro. Nunca tinha visto o que era. Até subir numa colheitadeira.
A viagem que não era pra ser nada
Eu tinha clientes do agro que vinham até São Paulo. Eles atravessavam o país, sentavam na minha sala, olhavam a vista da janela e voltavam. Um dia me ocorreu que isso estava invertido. Fui visitá-los.
Cheguei em Sorriso, no norte do Mato Grosso, e encontrei sobrenomes que poderiam ser da minha família. Muitos descendentes de italianos que migraram para lá a partir dos anos 70. A mesma ética de trabalho. A mesma relação com a terra. A mesma forma de tratar dinheiro: com respeito e sem cerimônia.
Fui embora achando que tinha feito uma visita comercial. Levei meses para entender que, sem saber, eu tinha voltado pra casa.
A parte que ninguém faz
Muita gente da Faria Lima descobre o agro. Vira tese, vira fundo, vira apresentação. Quase ninguém muda de endereço.
Eu não mandei a família depois, quando estivesse tudo confortável. Vim com ela. Meus filhos estudam aqui. O escritório de São Paulo continua aberto — eu não abandonei um mundo pelo outro, e é exatamente por isso que consigo fazer os dois conversarem. Mas a casa é aqui.
Em São Paulo, vocabulário técnico é senha de acesso. No agro, simplicidade é senha de acesso. Aprendi isso tarde demais pra ter sido menos arrogante no começo.
O que eu encontrei
Encontrei famílias que discutem safra na mesma mesa em que dão risada. Preocupação financeira e afeto convivendo sem precisar de separação — isso eu nunca tinha visto na Faria Lima.
E encontrei uma incoerência que não consigo ignorar até hoje. Pessoas extraordinárias em construir riqueza, que planejam três safras à frente considerando clima, câmbio, insumo e mercado, e que empurram a conversa sobre proteção e sucessão para “ano que vem”. O risco climático elas aceitam. O risco familiar, elas adiam.
Não é ignorância. É que ninguém nunca traduziu esse assunto para elas de um jeito suportável. Chegaram com juridiquês, com apresentação de quarenta slides, com medo travestido de urgência — ou com um gerente empurrando um produto para liberar uma linha de crédito e chamando isso de relacionamento.
Relacionamento de verdade não se sustenta no medo.
Por isso eu escrevo
Cheguei aqui querendo ensinar. Foi meu primeiro erro. O problema nunca foi falta de solução — o agro tem acesso a tudo. Foi excesso de venda e falta de relação.
Então parei de ensinar e comecei a observar. O que eu publico não é aula. É o que me chamou atenção na semana. Se virar conversa, ótimo. Se virar uma decisão que uma família toma dez anos antes de precisar, melhor ainda.
Tem assuntos importantes demais para serem explicados de forma entediante.
Em uma linha: Giuliano Fazzio Passini, planejador financeiro certificado CFP® pela Planejar. Mais de vinte anos em consultoria de patrimônio, com escritório na Faria Lima. Mora em Sorriso, Mato Grosso, com a família. Trabalha na AZG Group, com planejamento financeiro global.